Resposta direta: alguns dados recentes sobre semaglutida injetável e tirzepatida são tranquilizadores porque mostram passagem ausente ou muito baixa dessas substâncias para o leite materno. Isso, porém, não significa liberação automática para o uso durante a amamentação.

A decisão depende do medicamento, da fase da lactação, da idade e da saúde do bebê, do tipo de aleitamento e da necessidade clínica da mãe. Não é seguro iniciar, suspender ou retomar uma medicação por conta própria.

O que já sabemos em poucas linhas

  • A obesidade continua sendo uma doença crônica durante o período de amamentação e pode precisar de acompanhamento.

  • Semaglutida e tirzepatida são medicamentos diferentes e não representam todas as opções usadas no tratamento da obesidade.

  • Estudos recentes encontraram semaglutida injetável não detectável e tirzepatida ausente ou em quantidade muito baixa no leite humano.

  • Os estudos são pequenos e ainda não respondem adequadamente sobre efeitos de longo prazo no bebê ou sobre a produção de leite.

  • Recém-nascidos, prematuros e bebês em aleitamento exclusivo exigem cautela ainda maior.

O que mostrou o estudo sobre semaglutida na amamentação?

Um estudo publicado em 2024 avaliou amostras de leite de oito mulheres que utilizavam semaglutida por via subcutânea. A substância não foi detectada nas amostras analisadas.

O resultado é tranquilizador, mas precisa ser interpretado dentro dos limites do estudo:

  • participaram apenas oito mulheres;

  • os bebês tinham entre 4 e 23 meses;

  • nenhum deles estava em aleitamento materno exclusivo;

  • o estudo não permite concluir segurança para recém-nascidos, prematuros ou para todas as doses e situações clínicas;

  • não há acompanhamento amplo de possíveis efeitos de longo prazo.

Portanto, o estudo sugere exposição muito baixa do bebê pela semaglutida injetável, mas não comprova segurança irrestrita durante toda a amamentação.

Atenção: os dados citados se referem à semaglutida injetável. Formulações orais possuem características diferentes e não devem ser consideradas equivalentes.

O que sabemos sobre tirzepatida e leite materno?

A informação regulatória mais recente da FDA descreve um estudo de lactação com 11 mulheres saudáveis após uma dose subcutânea única de 5 mg de tirzepatida.

Das 171 amostras de leite analisadas:

  • 164 não apresentaram níveis detectáveis de tirzepatida;

  • nas sete amostras restantes, a quantidade acumulada encontrada correspondeu a menos de 0,02% da dose administrada à mãe;

  • as últimas concentrações mensuráveis ocorreram cinco dias depois da aplicação.

Esses dados indicam uma transferência muito baixa para o leite. Entretanto, o estudo avaliou uma dose única, e não o uso semanal prolongado em diferentes doses. A própria informação regulatória afirma que ainda não existem dados suficientes sobre os efeitos da tirzepatida no bebê amamentado ou sobre a produção de leite.

Também existe um estudo de 2025 sobre tirzepatida durante períodos de uso materno, mas ele foi disponibilizado como preprint. Isso significa que ainda não passou por todo o processo de revisão por pares e não deve ter o mesmo peso de uma publicação científica revisada.

Comparação rápida das evidências

MedicaçãoEvidência em leite humanoPrincipal limitação
Semaglutida injetávelNão detectada nas amostras de oito mulheresAmostra pequena; bebês de 4 a 23 meses; sem aleitamento exclusivo
TirzepatidaIndetectável em 164 de 171 amostras; quantidade total inferior a 0,02% da dose materna nas demaisApenas 11 mulheres e dose única de 5 mg

Baixa transferência para o leite não é o mesmo que segurança clínica definitivamente comprovada. Para afirmar segurança, também precisamos conhecer os efeitos no bebê, na produção de leite, no crescimento e no desenvolvimento ao longo do tempo.

O que deve ser avaliado antes de considerar uma medicação?

A pergunta não deve ser apenas “o remédio passa para o leite?”. Uma decisão clínica responsável inclui:

Condições da mãe

  • gravidade da obesidade e presença de complicações metabólicas;

  • histórico de tratamentos anteriores;

  • alimentação, hidratação e estado nutricional;

  • intensidade dos possíveis efeitos adversos, como náuseas, vômitos ou redução excessiva do apetite;

  • objetivos do tratamento e possibilidade de utilizar outras estratégias naquele momento.

Condições do bebê e da amamentação

  • idade do bebê;

  • nascimento a termo ou prematuro;

  • aleitamento exclusivo ou parcial;

  • ganho de peso e desenvolvimento;

  • existência de alguma condição clínica que aumente a vulnerabilidade;

  • produção de leite e desejo da mãe de manter a amamentação.

Medicamentos que reduzem bastante o apetite também podem dificultar a ingestão adequada de energia, proteínas, líquidos e micronutrientes. Mesmo quando a passagem para o leite é mínima, esse aspecto materno precisa ser acompanhado.

Então, quem amamenta pode usar semaglutida ou tirzepatida?

Pode existir indicação em situações selecionadas, após avaliação individualizada e decisão compartilhada. Os estudos mais recentes tornam a discussão menos rígida do que era alguns anos atrás, mas não autorizam uma recomendação genérica para todas as mulheres que amamentam.

Na prática, a cautela deve ser maior quando o bebê é recém-nascido, prematuro ou está em aleitamento exclusivo. Em uma mãe que amamenta uma criança maior, com alimentação complementar estabelecida, a relação entre benefícios e riscos pode ser diferente.

Também é importante conferir exatamente qual medicamento, apresentação e procedência serão utilizados. Produtos sem registro, manipulados de procedência duvidosa ou vendidos de forma clandestina acrescentam riscos que não foram avaliados nesses estudos.

Não suspenda a amamentação nem inicie a medicação sozinha

Amamentar não faz a obesidade deixar de ser uma doença. Ao mesmo tempo, tratar a obesidade não deve significar ignorar as necessidades do bebê ou interromper automaticamente uma amamentação desejada.

O caminho correto é avaliar o contexto inteiro e construir uma estratégia que proteja a saúde da mãe, do bebê e a continuidade da amamentação sempre que possível.

Perguntas frequentes

Ozempic pode ser usado durante a amamentação?

Ozempic contém semaglutida injetável. Um pequeno estudo não detectou a substância no leite materno, mas os dados ainda são insuficientes para uma liberação geral. O uso precisa ser discutido individualmente com o profissional responsável.

Mounjaro pode ser usado durante a amamentação?

Mounjaro contém tirzepatida. Dados recentes indicam passagem ausente ou muito baixa para o leite após uma dose de 5 mg, mas ainda faltam informações sobre uso prolongado, efeitos no bebê e produção de leite.

A semaglutida passa para o leite materno?

No estudo humano disponível, a semaglutida injetável não foi detectada nas amostras de leite. Isso sugere exposição muito baixa, mas o número de participantes foi pequeno e não havia recém-nascidos em aleitamento exclusivo.

A tirzepatida passa para o leite materno?

Na maioria das amostras do estudo regulatório, a tirzepatida não foi detectada. Nas poucas amostras com presença mensurável, a quantidade total foi inferior a 0,02% da dose recebida pela mãe.

É preciso parar de amamentar para tratar a obesidade?

Não necessariamente. O tratamento da obesidade não se resume à medicação e pode incluir alimentação, movimento, sono, saúde emocional, investigação metabólica e acompanhamento longitudinal. Quando a farmacoterapia é considerada, a decisão sobre manter a amamentação deve ser individualizada.

Posso voltar a usar a caneta que utilizava antes da gravidez?

Não por conta própria. O período pós-parto pode mudar peso, alimentação, hidratação, exames, outras medicações e necessidades clínicas. A indicação e a dose precisam ser reavaliadas.

Tratamento individualizado da obesidade em Campinas, Alphaville e on-line

Se você está amamentando e precisa tratar obesidade, o acompanhamento deve considerar muito mais do que o número na balança. É necessário avaliar sua saúde metabólica, sua alimentação, sua rotina, a fase da amamentação e as necessidades do bebê antes de decidir se uma medicação faz sentido agora.

A Dra. Camila Ayer realiza acompanhamento para obesidade e saúde metabólica em Campinas, Alphaville/Barueri e por telemedicina para todo o Brasil.

Para conhecer o acompanhamento, acesse o link de agendamento disponível no site ou na bio.

Dra. Camila Ayer
Médica de Família e Comunidade
CRM-SP 130787 | RQE 153900

Referências

  1. Diab H, Foroutan N, Datta P, et al. Subcutaneous Semaglutide during Breastfeeding: Infant Safety Regarding Drug Transfer into Human Milk. Nutrients. 2024;16(17):2886. Acessar no PubMed.

  2. U.S. Food and Drug Administration. Zepbound (tirzepatide) — Prescribing Information, seção 8.2, Lactation. Atualização de 2026. Acessar a bula técnica.

  3. Thompson J, Diab H, Datta P, Krutsch K. Tirzepatide (Zepbound) in Human Milk During Periods of Maternal Dosing. SSRN. 2025. Preprint. Acessar o registro.