Nos últimos anos, o tratamento da obesidade mudou rapidamente. Depois da popularização de medicamentos como semaglutida e tirzepatida, novas moléculas estão sendo estudadas — e uma delas é a mazdutida.

Os resultados recentes chamaram atenção porque a mazdutida atua de uma maneira diferente das medicações que já ficaram conhecidas no tratamento da obesidade.

Mas antes de chamar qualquer medicamento novo de “revolucionário”, é importante entender como ele funciona, o que os estudos realmente mostraram e quais são as limitações das evidências disponíveis até agora.

Resposta rápida: a mazdutida é um medicamento de aplicação semanal que atua simultaneamente nos receptores de GLP-1 e glucagon. Em um estudo de fase 3 realizado na China, a dose de 9 mg esteve associada a uma redução média de aproximadamente 17% do peso corporal em 60 semanas. Ela já foi aprovada na China, mas não está aprovada para uso no Brasil.

O que é mazdutida?

A mazdutida é um agonista duplo dos receptores de GLP-1 e glucagon (GCG).

Isso significa que ela atua simultaneamente em duas vias hormonais envolvidas na regulação metabólica.

O mecanismo é diferente tanto da semaglutida quanto da tirzepatida:

Semaglutida: atua no receptor de GLP-1.

Tirzepatida: atua nos receptores de GIP e GLP-1.

Mazdutida: atua nos receptores de GLP-1 e glucagon.

Essa diferença é importante porque mostra uma das direções atuais da pesquisa em obesidade: desenvolver medicamentos capazes de atuar em mais de uma via metabólica ao mesmo tempo.

O que o GLP-1 faz?

O GLP-1 é um hormônio produzido principalmente no intestino após a alimentação.

Entre suas funções estão a participação na regulação da glicemia, da secreção de insulina, da fome e da saciedade.

Medicamentos que atuam no receptor de GLP-1 já fazem parte do tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade.

Semaglutida e liraglutida são exemplos conhecidos.

E por que colocar o glucagon junto?

Aqui está uma das características interessantes da mazdutida.

O glucagon costuma ser lembrado principalmente por seu papel na regulação da glicemia. Mas sua fisiologia é mais complexa.

A ativação do receptor de glucagon também pode influenciar o gasto energético e o metabolismo de gorduras.

A proposta de um agonista duplo GLP-1/glucagon é, portanto, combinar efeitos sobre ingestão alimentar e saciedade com outros efeitos metabólicos relacionados à ativação do receptor de glucagon.

Isso não significa simplesmente que o medicamento “acelera o metabolismo”.

Essa seria uma simplificação excessiva de um mecanismo muito mais complexo.

Mazdutida é igual à tirzepatida?

Não.

Apesar de ambas atuarem em dois receptores, os alvos são diferentes.

A tirzepatida é um agonista duplo:

GIP + GLP-1

A mazdutida é um agonista duplo:

GLP-1 + glucagon

Portanto, chamar a mazdutida de “uma nova tirzepatida” não seria tecnicamente correto.

As duas pertencem a uma nova geração de terapias que exploram múltiplas vias metabólicas, mas possuem mecanismos diferentes.

Quanto a mazdutida emagrece?

Um dos estudos mais importantes até agora é o GLORY-2, ensaio clínico de fase 3 publicado em 2026 no JAMA.

O estudo avaliou adultos chineses com obesidade e comparou mazdutida com placebo.

Na dose de 9 mg uma vez por semana, durante 60 semanas, a redução média do peso corporal foi de aproximadamente:

16,65% com mazdutida

versus

1,50% com placebo

na análise principal (treatment-policy estimand).

Ou seja, é razoável comunicar o resultado ao público como uma perda média de cerca de 17% do peso corporal em 60 semanas.

É importante destacar a palavra média.

Isso não significa que todas as pessoas que utilizaram o medicamento perderam 17% do peso.

Algumas perderam mais, outras menos, e a resposta individual a qualquer tratamento farmacológico pode variar consideravelmente.

De onde vem o número de aproximadamente 18,5%?

É possível encontrar também resultados próximos de 18,5% relacionados ao GLORY-2.

Isso acontece porque o estudo utilizou diferentes estratégias estatísticas para analisar os resultados.

No chamado efficacy estimand, a redução média de peso com 9 mg foi de aproximadamente 18,55%.

Já na análise principal pelo treatment-policy estimand, o resultado foi 16,65%.

Para comunicação com pacientes e público geral, prefiro utilizar “cerca de 17%”, deixando claro que estamos falando da média observada no estudo.

A mazdutida melhorou alguma coisa além do peso?

Sim.

Os resultados do GLORY-2 não se limitaram ao número da balança.

Também foram observadas alterações favoráveis em parâmetros como:

  • circunferência abdominal;
  • pressão arterial;
  • alguns parâmetros do perfil lipídico;
  • outros marcadores cardiometabólicos avaliados no estudo.

Isso é particularmente relevante porque tratar obesidade não significa simplesmente produzir o maior emagrecimento possível.

O peso é importante, mas o objetivo do tratamento também envolve reduzir riscos e melhorar a saúde global da pessoa.

Quais são os efeitos colaterais da mazdutida?

No estudo, os eventos adversos mais frequentes foram principalmente gastrointestinais, como ocorre com outras terapias incretínicas.

Isso pode incluir sintomas como náusea, vômitos e diarreia.

A existência de efeitos adversos também ajuda a lembrar algo importante quando vemos resultados impressionantes de perda de peso:

eficácia não é o único critério para definir um bom tratamento.

Tolerabilidade e segurança também precisam ser consideradas.

A mazdutida já foi aprovada?

A situação precisa ser explicada com cuidado.

A mazdutida já recebeu aprovação na China.

Por outro lado, não está aprovada para uso no Brasil.

Além disso, uma parcela importante das evidências clínicas disponíveis até agora foi produzida em população chinesa.

Isso não invalida os resultados, mas significa que precisamos ter cautela ao extrapolá-los automaticamente para todas as populações.

Posso comprar mazdutida no Brasil?

Neste momento, a mazdutida não é um medicamento aprovado para tratamento da obesidade no Brasil.

Portanto, resultados publicados em estudos internacionais não devem ser interpretados como recomendação para buscar o medicamento por conta própria.

Também é importante ter cuidado com produtos vendidos pela internet alegando conter moléculas novas ou ainda não disponíveis regularmente no país.

Mazdutida é melhor que semaglutida?

Ainda não é adequado concluir simplesmente que sim.

Os resultados de perda de peso da mazdutida são promissores, mas comparar percentuais obtidos em estudos diferentes pode ser enganoso.

Populações, critérios de inclusão, duração do tratamento, doses, manejo das interrupções e métodos estatísticos podem variar.

Um medicamento apresentar determinado percentual de perda de peso em um ensaio clínico não significa automaticamente que seja superior a outro medicamento estudado em condições diferentes.

Comparações diretas entre medicamentos são muito mais informativas do que colocar lado a lado números provenientes de estudos independentes.

E mazdutida versus tirzepatida?

Vale o mesmo raciocínio.

Não é correto simplesmente pegar a perda média de peso observada em um estudo de tirzepatida e comparar com os 17% encontrados no GLORY-2 para criar um ranking de medicamentos.

Além das diferenças entre os estudos, os mecanismos também são diferentes.

A pergunta científica relevante não é apenas:

“Qual emagrece mais?”

Também precisamos saber:

Para quem funciona melhor? Com qual segurança? Quais são os efeitos metabólicos? Qual é a tolerabilidade? O benefício é mantido? Como se comporta em diferentes populações?

Essas respostas aparecem à medida que a evidência amadurece.

Mazdutida é o próximo “milagre” para emagrecer?

Não.

E provavelmente essa é a parte mais importante desta discussão.

A história do tratamento da obesidade é marcada por momentos em que novas intervenções foram apresentadas ao público como soluções definitivas.

A chegada de medicamentos mais eficazes representa um avanço científico real.

Mas avanço científico e milagre são coisas completamente diferentes.

Nenhuma porcentagem de perda de peso em um ensaio clínico transforma automaticamente um medicamento em solução universal.

Existem indicação, contraindicações, efeitos adversos, resposta individual, custo, acesso e acompanhamento de longo prazo.

Além disso, obesidade é uma doença crônica e heterogênea.

Duas pessoas com o mesmo IMC podem ter histórias, riscos, complicações, comportamentos alimentares, condições metabólicas e necessidades completamente diferentes.

Onde a medicação entra no Método 5P?

No meu acompanhamento, a possibilidade de usar uma medicação é apenas uma parte da avaliação.

Organizo o cuidado pelo Método 5P:

Prato: alimentação possível e sustentável dentro da rotina.

Passos: atividade física, força, capacidade funcional e movimento que caiba na vida real.

Pausa: sono, estresse e recuperação.

Perfil Metabólico: história clínica, trajetória do peso, exames quando indicados, medicamentos em uso, comorbidades e risco cardiometabólico.

Prescrição: medicamentos quando houver indicação clínica.

Uma molécula nova pode ampliar as possibilidades dentro do último P.

Ela não elimina os outros quatro.

O futuro do tratamento da obesidade

Talvez a parte mais interessante da mazdutida não seja descobrir se ela será “melhor” que uma caneta que já existe.

Ela mostra como a farmacologia da obesidade está evoluindo.

Depois dos agonistas de GLP-1 e dos agonistas duplos GIP/GLP-1, diferentes combinações de vias metabólicas estão sendo investigadas.

Isso pode ampliar as opções terapêuticas e, potencialmente, permitir tratamentos cada vez mais individualizados.

Mas cada avanço precisa passar pelo mesmo filtro:

evidência, segurança, indicação e acompanhamento.

Não hype.

Tratamento da obesidade em Campinas, São Paulo e on-line

Sou Dra. Camila Ayer, Médica de Família e Comunidade, e atuo no cuidado de pessoas com obesidade e sobrepeso com uma abordagem integral.

O objetivo não é simplesmente escolher “a caneta que emagrece mais”, mas entender qual estratégia faz sentido para aquela pessoa, naquele momento.

Os atendimentos são realizados presencialmente em Campinas e São Paulo, além de telemedicina para todo o Brasil.

Ciência sem terrorismo. Sem milagres.

Dra. Camila Ayer
Médica de Família e Comunidade
CRM-SP 130787 | RQE 153900


Perguntas frequentes sobre mazdutida

O que é mazdutida?
É um agonista duplo dos receptores de GLP-1 e glucagon estudado para condições metabólicas, incluindo obesidade.

Mazdutida é GLP-1?
Ela atua no receptor de GLP-1, mas não apenas nele. Também atua no receptor de glucagon.

Mazdutida e tirzepatida são iguais?
Não. Tirzepatida atua nos receptores GIP e GLP-1. Mazdutida atua nos receptores GLP-1 e glucagon.

Quanto a mazdutida emagreceu no GLORY-2?
Na dose de 9 mg semanal, a redução média de peso na análise principal foi de aproximadamente 16,65% em 60 semanas, comparada a 1,50% com placebo.

Mazdutida já foi aprovada?
Ela já foi aprovada na China, mas não está aprovada para uso no Brasil.

Mazdutida é melhor que semaglutida ou tirzepatida?
Não é possível transformar resultados de estudos diferentes em um ranking simples. Mecanismo, população estudada, segurança, tolerabilidade e evidências comparativas precisam ser considerados.

Quando a mazdutida chega ao Brasil?
Não é adequado estabelecer uma data sem uma aprovação regulatória brasileira definida. Até que haja decisão da Anvisa, qualquer previsão deve ser vista com cautela.