Usa medicação para obesidade? Veja os cuidados recomendados por consenso de 2026
Medicamentos para obesidade, especialmente as terapias baseadas em incretinas, transformaram as possibilidades de tratamento nos últimos anos. Mas uma coisa não mudou: medicação não substitui cuidado.
Em 2026, especialistas da European Association for the Study of Obesity (EASO), da European Federation of the Associations of Dietitians (EFAD) e da European Coalition for People living with Obesity (ECPO) publicaram um consenso na The Lancet Diabetes & Endocrinology sobre os cuidados nutricionais, funcionais e psicológicos que devem acompanhar o uso dessas terapias.
O documento chama atenção para um ponto importante: tratar obesidade não é simplesmente prescrever uma medicação e acompanhar o número na balança.
É preciso olhar também para alimentação, massa magra e função física, possíveis deficiências nutricionais, efeitos gastrointestinais, saúde psicológica e para o contexto de vida daquela pessoa.
O que são medicamentos baseados em incretinas?
Incretinas são hormônios envolvidos, entre outras funções, na regulação da glicemia, da fome e da saciedade.
Medicamentos que atuam nessas vias incluem terapias utilizadas atualmente no tratamento da obesidade, como agonistas do receptor de GLP-1 e medicamentos com ação combinada em receptores relacionados às incretinas.
Entre os exemplos mais conhecidos estão semaglutida e tirzepatida, quando utilizadas dentro de suas respectivas indicações clínicas.
Esses medicamentos podem reduzir fome e ingestão alimentar e produzir perdas de peso clinicamente importantes.
Mas justamente porque podem modificar de maneira significativa quanto e como uma pessoa consegue comer, o acompanhamento não deveria se limitar à dose da medicação.
1. Nutrição continua sendo parte do tratamento
Uma das mensagens centrais do consenso é que a terapia nutricional médica deve acompanhar o tratamento farmacológico.
Isso inclui atenção à ingestão adequada de proteína, qualidade global da dieta e micronutrientes.
Esse cuidado ganha ainda mais importância quando a redução do apetite é intensa.
Comer menos não significa automaticamente comer melhor.
Uma pessoa pode reduzir significativamente sua ingestão energética e, ao mesmo tempo, consumir quantidade insuficiente de proteínas, vitaminas, minerais ou outros nutrientes importantes.
Por isso, o objetivo não é simplesmente fazer o paciente “comer o mínimo possível”.
É manter uma alimentação nutricionalmente adequada dentro da nova realidade de fome e saciedade proporcionada pelo tratamento.
2. Náusea, vômitos e outros sintomas gastrointestinais também precisam ser manejados
Náusea, vômitos, constipação, diarreia e outros sintomas gastrointestinais podem ocorrer durante o tratamento com algumas terapias baseadas em incretinas.
Estratégias alimentares podem fazer parte do manejo desses sintomas.
Dependendo da situação, podem ser necessários ajustes no tamanho e composição das refeições, velocidade de alimentação, hidratação e outros aspectos da rotina alimentar.
Sintomas persistentes ou importantes, porém, não devem simplesmente ser normalizados como “o remédio funcionando”.
Eles precisam ser avaliados.
3. Perder peso não significa perder apenas gordura
Durante o emagrecimento, a redução do peso corporal pode incluir tanto massa de gordura quanto massa livre de gordura.
Por isso, o consenso destaca a importância de estratégias voltadas à preservação de massa magra e função física.
Entre elas estão:
ingestão adequada de proteína + exercício resistido progressivo.
O objetivo não é apenas modificar a composição corporal.
Preservar força e capacidade funcional importa para saúde, autonomia e qualidade de vida.
Por isso, acompanhar apenas quantos quilos desapareceram da balança oferece uma visão incompleta do tratamento.
4. A saúde psicológica também merece atenção
Existe ainda uma dimensão menos discutida do tratamento.
A alimentação não tem apenas função energética.
Comida pode participar de celebrações, encontros sociais, prazer, recompensa e estratégias utilizadas ao longo da vida para lidar com emoções.
Ao modificar fome, saciedade e recompensa alimentar, o tratamento também pode modificar a experiência que aquela pessoa tem com a comida.
O consenso discute aspectos como recompensa alimentar, regulação emocional e conexão social e recomenda atenção à saúde psicológica durante o tratamento.
Isso não significa que toda pessoa utilizando uma medicação para obesidade precise necessariamente de psicoterapia.
Significa que essa dimensão não deve ser ignorada e que rastreio e suporte apropriado devem estar disponíveis quando necessários.
5. Acompanhar apenas o peso não é suficiente
A balança é uma ferramenta útil, mas não resume a resposta ao tratamento.
O consenso propõe atenção a outros parâmetros, incluindo:
qualidade da alimentação;
risco de inadequação ou deficiência de micronutrientes;
função física;
sintomas e tolerabilidade;
aspectos psicológicos;
composição corporal, quando sua avaliação for indicada.
O acompanhamento também permite avaliar se os benefícios do tratamento continuam superando seus riscos e se a estratégia ainda faz sentido para aquela pessoa.
6. A maior dose nem sempre deve ser o objetivo
O tratamento não deveria funcionar como uma corrida automática até a maior dose disponível.
Decisões sobre iniciar, aumentar, adiar um aumento, reduzir, pausar ou suspender uma terapia precisam considerar resposta clínica, tolerabilidade, riscos, objetivos e preferências do paciente.
É o princípio da decisão compartilhada.
O profissional oferece conhecimento técnico e apresenta benefícios, riscos e alternativas.
O paciente participa trazendo seus objetivos, prioridades, experiências e contexto de vida.
A decisão é construída a partir dos dois.
Quem usa semaglutida ou tirzepatida precisa acompanhar massa muscular?
A preocupação é pertinente porque qualquer perda significativa de peso pode envolver alguma redução de massa livre de gordura.
Isso não significa que toda pessoa precise realizar exames sofisticados de composição corporal repetidamente.
A necessidade e o método de avaliação devem ser individualizados.
Independentemente disso, ingestão adequada de proteína, atividade física e exercício resistido são aspectos importantes do cuidado durante o processo de perda de peso, considerando as condições e limitações individuais.
Preciso tomar vitaminas porque uso medicamento para obesidade?
Não necessariamente.
O uso de uma medicação baseada em incretinas, por si só, não significa que toda pessoa precise iniciar suplementos.
O ponto destacado pelo consenso é a necessidade de observar qualidade da alimentação e risco de inadequação de micronutrientes.
Quando existe suspeita ou risco aumentado de deficiência, a avaliação clínica e nutricional pode determinar se são necessários exames, mudanças alimentares ou suplementação específica.
Suplementar indiscriminadamente não substitui essa avaliação.
Como saber se estou comendo proteína suficiente durante o tratamento?
A necessidade de proteína não é igual para todas as pessoas.
Ela pode variar conforme peso, composição corporal, idade, nível de atividade física, condições clínicas, intensidade da perda de peso e outros fatores.
Por isso, uma quantidade universal retirada da internet não substitui uma avaliação individualizada.
Um sinal de alerta durante o tratamento é quando a supressão do apetite se torna tão intensa que o paciente tem dificuldade recorrente para realizar refeições ou atingir uma alimentação minimamente adequada.
Nessa situação, vale reavaliar o tratamento em vez de simplesmente comemorar a ausência de fome.
Medicamentos para obesidade substituem alimentação e atividade física?
Não.
Essa talvez seja uma das interpretações mais importantes do consenso.
Reconhecer que obesidade possui mecanismos biológicos e que medicamentos podem ser necessários não significa voltar para a ideia simplista de que tudo depende de dieta e exercício.
Mas o contrário também não é verdadeiro.
A eficácia da farmacoterapia não torna alimentação, movimento, sono, saúde psicológica e acompanhamento clínico irrelevantes.
Essas estratégias cumprem funções diferentes e podem trabalhar juntas.
Como deve ser o acompanhamento de quem usa medicação para obesidade?
Um acompanhamento adequado precisa responder a mais perguntas do que simplesmente:
“Quantos quilos você perdeu?”
É preciso avaliar se a pessoa está conseguindo se alimentar adequadamente, como estão fome e saciedade, se existem efeitos adversos, como está sua função física, quais mudanças ocorreram nos exames e nas condições associadas à obesidade e se o tratamento continua adequado aos seus objetivos.
Também é necessário reavaliar a prescrição ao longo do tempo.
Obesidade é uma doença crônica, e tratamentos crônicos exigem acompanhamento.
Como essa lógica entra no Método 5P?
É justamente por entender o tratamento dessa maneira que organizo meu acompanhamento a partir de cinco dimensões:
Prato — alimentação, qualidade nutricional e estratégias possíveis dentro da rotina.
Passos — movimento, atividade física e preservação da capacidade funcional.
Pausa — sono, recuperação e estresse.
Perfil Metabólico — história clínica, características individuais, exames, condições associadas e resposta metabólica.
Prescrição — indicação, escolha, acompanhamento e ajustes do tratamento médico quando necessários.
Os cinco pontos não competem entre si.
Eles ajudam a organizar diferentes partes de um mesmo cuidado.
Afinal, qual é a principal recomendação para quem usa medicação para obesidade?
A principal mensagem é simples:
a medicação deve fazer parte de um tratamento, e não representar o tratamento inteiro.
Terapias baseadas em incretinas podem produzir resultados importantes no tratamento da obesidade. Ao mesmo tempo, o cuidado deve considerar qualidade nutricional, preservação da função física, saúde psicológica, possíveis efeitos adversos e acompanhamento longitudinal.
Não se trata de diminuir a importância da medicação.
Trata-se justamente de usá-la melhor.
Perguntas frequentes
Quem usa caneta para emagrecer precisa comer proteína?
A ingestão adequada de proteína é uma das preocupações durante a perda de peso, especialmente para contribuir para a preservação de massa magra. A quantidade necessária deve ser individualizada.
É normal não sentir nenhuma fome usando semaglutida ou tirzepatida?
Essas terapias podem reduzir significativamente a fome. Entretanto, supressão do apetite que dificulte persistentemente uma alimentação nutricionalmente adequada merece reavaliação clínica.
Musculação é importante durante o tratamento da obesidade?
O consenso destaca exercício resistido progressivo associado a ingestão adequada de proteína como estratégia para ajudar a preservar massa magra e função física durante a perda de peso. A atividade deve ser adequada às condições e capacidades individuais.
Preciso fazer bioimpedância durante o tratamento?
Não obrigatoriamente. A avaliação da composição corporal pode ser útil em situações específicas, mas sua indicação deve ser individualizada.
Posso aumentar a dose da medicação se parei de perder peso?
Mudanças de dose devem considerar resposta, tolerabilidade, objetivos, riscos e características individuais. Estagnação do peso isoladamente não determina automaticamente que a dose precise ser aumentada.
O tratamento com medicação para obesidade precisa de acompanhamento médico?
Medicamentos prescritos para tratamento da obesidade exigem indicação adequada e acompanhamento para avaliar eficácia, segurança, tolerabilidade e necessidade de ajustes ao longo do tempo.
Referência científica
Dobbie LJ et al. Nutritional, functional, and psychological considerations for incretin-based therapies in adults—an EASO, EFAD, and ECPO Consensus Statement. The Lancet Diabetes & Endocrinology. 2026;14(9):754–777. DOI: 10.1016/S2213-8587(26)00122-1.
Dra. Camila Ayer
Médica de Família e Comunidade
CRM-SP 130787 | RQE 153900
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