The Biggest Loser e o metabolismo: por que manter o peso perdido pode ser tão difícil?
Você provavelmente já viu alguma transformação do The Biggest Loser.
O reality show americano reunia pessoas com obesidade em uma competição para descobrir quem conseguiria perder mais peso. Os participantes passavam por uma rotina extremamente intensa de restrição alimentar e exercícios, produzindo perdas de peso impressionantes em poucos meses.
Mas uma pergunta ficou ainda mais interessante depois que as câmeras foram desligadas:
o que aconteceu com essas pessoas nos anos seguintes?
Pesquisadores liderados por Kevin Hall, do National Institutes of Health (NIH), acompanharam alguns desses participantes e encontraram algo importante para entendermos o tratamento da obesidade: o organismo pode se adaptar à perda de peso reduzindo seu gasto energético.
Essa adaptação ajuda a explicar por que manter o peso perdido pode ser biologicamente mais difícil do que simplesmente “continuar fazendo a dieta”.
O que aconteceu no The Biggest Loser?
O programa ficou conhecido pelas grandes perdas de peso obtidas em um período relativamente curto.
Em uma das fases estudadas pelos pesquisadores, os participantes realizavam aproximadamente três horas diárias de exercício vigoroso, enquanto a redução estimada da ingestão energética chegava a cerca de 65%.
Era, portanto, uma intervenção muito distante da rotina habitual da maioria das pessoas que busca tratamento para obesidade.
E isso é importante para interpretar os estudos realizados com esses participantes: não podemos simplesmente extrapolar os resultados para qualquer pessoa que esteja emagrecendo.
O que os pesquisadores encontraram seis anos depois?
Em um estudo publicado em 2016 na revista Obesity, pesquisadores reavaliaram 14 participantes do programa aproximadamente seis anos após o fim da competição.
Durante o reality, eles haviam perdido, em média, cerca de 58 kg.
Seis anos depois, haviam recuperado uma parcela importante desse peso — aproximadamente 41 kg em média.
Mas o achado que tornou esse estudo tão conhecido estava no gasto energético.
Mesmo depois de anos e da recuperação substancial do peso, o gasto energético de repouso permanecia abaixo do que seria esperado considerando idade e composição corporal.
A diferença média encontrada foi de aproximadamente 500 kcal por dia.
Isso significa que o emagrecimento “estragou o metabolismo”?
Não.
Essa é uma interpretação muito comum do estudo do The Biggest Loser, mas não é uma boa conclusão científica.
O fenômeno observado é conhecido como adaptação metabólica ou termogênese adaptativa.
Quando uma pessoa perde peso, seu gasto energético naturalmente diminui em parte porque existe menos massa corporal para ser mantida e movimentada.
Mas a redução pode ser maior do que aquela esperada apenas pela mudança no tamanho e na composição corporal.
É esse componente adicional que chamamos de adaptação metabólica.
O próprio Kevin Hall publicou posteriormente uma reanálise desses dados e chamou atenção para interpretações equivocadas do estudo, especialmente a ideia de que dietas necessariamente “danificariam” permanentemente o metabolismo.
Portanto, o estudo não significa que toda pessoa que emagrece passará a gastar 500 kcal a menos por dia, nem que emagrecer inevitavelmente causa um metabolismo permanentemente lento.
Então por que recuperar peso é tão comum?
Porque manter o peso perdido não depende apenas de força de vontade.
Depois da perda de peso, podem ocorrer adaptações fisiológicas que favorecem a recuperação do peso, envolvendo tanto o gasto energético quanto mecanismos relacionados à fome, saciedade e regulação do peso corporal.
Isso cria uma situação importante:
a pessoa pode precisar fazer mais esforço para permanecer no peso reduzido do que alguém de características semelhantes que nunca perdeu aquele peso.
É por isso que frases como:
“É só continuar fazendo o que fez para emagrecer.”
ou
“Se recuperou o peso, faltou disciplina.”
simplificam excessivamente a fisiologia da obesidade.
O estudo prova que emagrecer rápido causa mais reganho de peso?
Também não.
Esse é outro cuidado importante.
Os participantes do The Biggest Loser passaram por uma intervenção extraordinariamente intensa, mas o estudo não permite concluir simplesmente que:
quanto mais rápido você emagrecer, maior será a adaptação metabólica e maior será o reganho de peso.
Essa relação é mais complexa.
O estudo é particularmente interessante porque demonstra de maneira muito clara que o organismo responde biologicamente à perda de peso e que algumas dessas adaptações podem persistir por bastante tempo.
Mas ele não deve ser transformado em uma regra universal sobre velocidade de emagrecimento.
O que isso muda no tratamento da obesidade?
Muda principalmente a maneira como interpretamos a recuperação de peso.
Se obesidade é uma doença crônica, o tratamento não deveria terminar quando a pessoa alcança determinado número na balança.
Precisamos pensar desde o início em:
- alimentação que possa ser mantida;
- atividade física e preservação de massa muscular;
- sono e recuperação;
- fome, saciedade e comportamento alimentar;
- contexto de vida e saúde mental;
- acompanhamento longitudinal;
- e tratamento medicamentoso quando houver indicação clínica.
Perder peso é apenas uma etapa. Manter o resultado também faz parte do tratamento.
É justamente por isso que estratégias extremamente restritivas podem produzir resultados impressionantes no curto prazo sem necessariamente resolver o problema de longo prazo.
Como o Método 5P aborda a manutenção do peso?
No meu acompanhamento, utilizo o Método 5P para evitar que o tratamento da obesidade fique restrito à pergunta “o que você está comendo?”.
Os cinco pilares são:
Prato: alimentação possível e sustentável.
Passos: movimento, atividade física e redução do sedentarismo.
Pausa: sono, recuperação e manejo do estresse.
Psique: comportamento alimentar e relação com a comida.
Prescrição: avaliação clínica, exames e medicamentos quando indicados.
A ideia é entender quais fatores estão sustentando a obesidade naquela pessoa e como eles mudam ao longo do tratamento.
Porque uma estratégia que funciona durante a fase de perda de peso pode precisar ser modificada durante a manutenção.
Recuperou peso depois de emagrecer: e agora?
Recuperar parte do peso perdido não significa automaticamente que você “jogou todo o tratamento fora”.
É um sinal para reavaliar.
Vale investigar o que aconteceu com a fome e a saciedade, como está o sono, se houve mudança na rotina, redução da atividade física, interrupção de medicamentos, aumento do estresse ou se a estratégia utilizada simplesmente não era sustentável no longo prazo.
Em vez de transformar o reganho de peso em julgamento moral, ele pode ser tratado como informação clínica.
E essa mudança de perspectiva é fundamental no cuidado de uma doença crônica.
Tratamento da obesidade em Campinas e on-line
Se você procura tratamento da obesidade em Campinas ou acompanhamento médico on-line, meu trabalho é baseado em avaliação individualizada e acompanhamento longitudinal.
Como Médica de Família e Comunidade, avalio não apenas o peso, mas também alimentação, atividade física, sono, comportamento alimentar, contexto de vida, condições clínicas associadas e necessidade de tratamento medicamentoso.
O objetivo não é produzir a maior queda possível na balança em poucas semanas.
É construir um tratamento que faça sentido também depois que o peso diminui.
Dra. Camila Ayer
Médica de Família e Comunidade
CRM-SP 130787 | RQE 153900
Método 5P
Campinas • São Paulo • On-line para todo o Brasil