Duas pessoas podem seguir estratégias semelhantes para perder peso e apresentar resultados completamente diferentes.

Uma sente muita fome durante o processo. Outra consegue reduzir a quantidade de comida, mas volta a sentir fome pouco tempo depois das refeições. Uma terceira percebe que emoções têm grande influência sobre seu comportamento alimentar. Outra parece apresentar um gasto energético menor do que o esperado.

Isso acontece porque obesidade não é uma doença biologicamente igual em todas as pessoas.

Nos últimos anos, pesquisadores da Mayo Clinic têm estudado uma abordagem baseada em fenótipos da obesidade, tentando identificar mecanismos predominantes relacionados à fome, saciedade, comportamento alimentar e gasto energético.

Quatro fenótipos ficaram particularmente conhecidos:

Hungry Brain, Hungry Gut, Emotional Hunger e Slow Burn.

Entender esse modelo ajuda a explicar por que o tratamento da obesidade precisa ser individualizado.

O que são fenótipos da obesidade?

Fenótipo é uma característica observável que resulta da interação entre fatores biológicos, comportamentais e ambientais.

No contexto da obesidade, pesquisadores têm estudado características que poderiam ajudar a identificar quais mecanismos têm maior participação na regulação do peso de determinada pessoa.

Isso é diferente de afirmar que existem apenas quatro “tipos de obesidade”.

A obesidade é uma doença crônica, complexa e multifatorial, e uma mesma pessoa pode apresentar características de mais de um fenótipo.

O modelo estudado pelo grupo da Mayo Clinic ganhou atenção justamente por tentar sair da lógica de que todas as pessoas com obesidade apresentam o mesmo problema e deveriam receber exatamente a mesma intervenção.

1. Hungry Brain: quando é preciso comer mais para atingir a saciedade

O primeiro fenótipo é chamado de Hungry Brain, ou “cérebro faminto”.

Nesse perfil, a pessoa tende a precisar consumir uma quantidade maior de alimento durante uma refeição antes de atingir uma sensação adequada de saciedade.

Em termos simples, o sinal de “já foi suficiente” tende a aparecer depois.

Isso é importante porque frequentemente interpretamos grandes volumes alimentares apenas como uma questão comportamental.

Mas fome e saciedade são fenômenos biologicamente regulados.

O cérebro recebe e integra diferentes sinais provenientes do trato gastrointestinal, tecido adiposo e outros sistemas para participar da regulação da ingestão alimentar.

Portanto, duas pessoas diante da mesma quantidade de comida podem experimentar sensações de saciedade diferentes.

2. Hungry Gut: quando a saciedade dura pouco

O segundo fenótipo ficou conhecido como Hungry Gut, ou “intestino faminto”.

Aqui, a questão não é necessariamente precisar de uma quantidade muito grande para terminar a refeição satisfeito.

O problema pode aparecer depois:

a saciedade dura menos e a fome retorna mais cedo.

Nesse fenótipo, características gastrointestinais, incluindo diferenças no esvaziamento gástrico, podem participar dessa resposta.

Isso ajuda a entender por que perguntar simplesmente “você sente muita fome?” pode ser insuficiente.

É diferente perguntar:

Quanto você precisa comer para ficar satisfeito?

e:

Quanto tempo essa saciedade permanece depois da refeição?

São aspectos distintos da regulação alimentar.

3. Emotional Hunger: quando emoção e alimentação estão fortemente conectadas

Outro perfil estudado é o Emotional Hunger, ou fome emocional.

Nesse caso, existe maior influência de emoções e mecanismos relacionados à recompensa sobre o comportamento alimentar.

Ansiedade, estresse, tristeza, tédio e outras experiências emocionais podem aumentar a tendência a buscar determinados alimentos.

Isso não significa que qualquer episódio de comer por prazer seja patológico.

Comer nunca foi uma atividade exclusivamente metabólica. Alimentação também envolve prazer, cultura, memória, socialização e recompensa.

A questão clínica é entender quanto esse mecanismo participa do comportamento alimentar daquela pessoa e se está contribuindo para a manutenção da obesidade.

Reduzir esse fenômeno a “falta de força de vontade” não ajuda a compreendê-lo nem a tratá-lo.

4. Slow Burn: diferenças no gasto energético

O quarto fenótipo é chamado de Slow Burn, algo como “queima lenta”.

Ele está relacionado a um gasto energético menor em relação ao esperado, considerando características individuais e composição corporal.

Nosso organismo utiliza energia continuamente para manter suas funções, mesmo em repouso.

E esse gasto não é idêntico entre indivíduos.

Massa corporal, quantidade de massa magra, idade, sexo biológico, genética, atividade física e adaptações metabólicas são alguns dos fatores que podem influenciá-lo.

Isso não significa que alguém “não emagrece porque tem metabolismo lento”.

Essa explicação seria simplista.

Significa apenas que diferenças no gasto energético fazem parte da variabilidade biológica entre indivíduos e podem ter relevância no tratamento.

Uma pessoa pode apresentar mais de um fenótipo?

Sim.

Esses fenótipos não devem ser entendidos como quatro caixas rígidas.

Uma pessoa pode apresentar características compatíveis com mais de um mecanismo, e existem pacientes que não se encaixam claramente nesses perfis.

Essa ressalva é fundamental.

O modelo de fenótipos é uma forma interessante de estudar a heterogeneidade da obesidade, mas não representa uma classificação definitiva de todas as pessoas que vivem com a doença.

Tratamento baseado em fenótipos funciona melhor?

Essa é uma das partes mais interessantes da pesquisa.

Estudos conduzidos pelo grupo da Mayo Clinic avaliaram estratégias de tratamento orientadas pelas características fenotípicas dos pacientes.

Em um estudo de prova de conceito, uma abordagem orientada pelos fenótipos foi associada a maior perda de peso após 12 meses quando comparada a uma abordagem não fenotipada.

O resultado é promissor porque reforça uma ideia central da medicina da obesidade:

pessoas diferentes podem responder melhor a estratégias diferentes.

Mas é importante interpretar isso corretamente.

Esses resultados não significam que a fenotipagem já seja um exame obrigatório antes do tratamento da obesidade, nem que exista hoje um algoritmo perfeito capaz de dizer exatamente qual tratamento funcionará para cada pessoa.

A medicina de precisão aplicada à obesidade é uma área em desenvolvimento.

Preciso fazer testes para descobrir meu “tipo de obesidade”?

Não necessariamente.

A pesquisa formal dos fenótipos pode envolver avaliações específicas que não fazem parte da rotina de todo consultório.

Mas o princípio por trás desse conhecimento já pode melhorar muito uma consulta.

Uma boa avaliação clínica pode explorar questões como:

  • Como é a sua fome ao longo do dia?

  • Quanto precisa comer para perceber saciedade?

  • Quanto tempo permanece satisfeito depois das refeições?

  • Existem episódios de comer relacionados a emoções?

  • Como está o sono?

  • Qual é o padrão de atividade física?

  • Houve ciclos anteriores de perda e recuperação de peso?

  • Existem medicamentos que podem interferir no peso?

  • Há condições clínicas associadas?

  • Como são rotina, trabalho, ambiente e acesso aos alimentos?

Essas perguntas não substituem testes específicos de fenotipagem.

Elas fazem algo mais básico e indispensável: ajudam a entender a pessoa que está sendo tratada.

Por que a mesma dieta não funciona igual para todo mundo?

Porque o resultado de um tratamento não depende apenas do cardápio.

Existem diferenças em fome, saciedade, recompensa alimentar, gasto energético, genética, composição corporal, sono, atividade física, ambiente, condições sociais, medicamentos, doenças associadas e capacidade de sustentar determinada estratégia ao longo do tempo.

Além disso, durante a perda de peso, o organismo pode responder com adaptações fisiológicas que favorecem o aumento da fome e a redução do gasto energético.

Por isso, uma dieta que funciona bem para uma pessoa pode ser difícil de sustentar para outra.

Isso não significa que balanço energético deixou de importar.

Significa que os fatores que determinam ingestão e gasto energético são muito mais complexos do que simplesmente decidir comer menos.

Individualização não significa inventar uma dieta diferente para cada pessoa

Esse também é um ponto importante.

Individualizar tratamento não significa abandonar princípios científicos nem criar uma explicação diferente para cada paciente.

Significa aplicar esses princípios considerando:

qual é o problema predominante, quais são as barreiras, quais intervenções têm indicação e o que é sustentável para aquela pessoa.

Essa lógica também vale para medicamentos utilizados no tratamento da obesidade.

A escolha de uma medicação não deveria depender apenas de qual medicamento produz maior perda média de peso nos estudos.

História clínica, contraindicações, efeitos adversos, doenças associadas, padrão alimentar, objetivos, custo, disponibilidade e preferências do paciente também precisam entrar na decisão.

Como funciona o Método 5P no tratamento da obesidade?

No meu atendimento de obesidade em Campinas, São Paulo e on-line para todo o Brasil, organizo a avaliação através do Método 5P.

Ele considera cinco dimensões que interagem entre si:

Prato — alimentação, fome, saciedade, qualidade alimentar e estratégias possíveis dentro da rotina.

Passos — atividade física, movimento cotidiano e comportamento sedentário.

Pausa — sono, estresse e recuperação.

Psique — comportamento alimentar, relação com a comida e aspectos emocionais relevantes.

Prescrição — avaliação médica, condições clínicas, exames e medicamentos quando indicados.

O objetivo não é colocar todas as pessoas no mesmo protocolo.

É responder a uma pergunta muito mais útil:

O que está sustentando a obesidade desta pessoa?

A partir daí, o tratamento pode ser construído de maneira mais racional.

Obesidade exige tratamento individualizado

Os fenótipos da obesidade são interessantes porque deixam evidente algo que a prática clínica já exige:

não podemos tratar uma doença heterogênea como se ela funcionasse exatamente da mesma maneira em todas as pessoas.

Hungry Brain, Hungry Gut, Emotional Hunger e Slow Burn não devem virar novos rótulos.

Eles ajudam a ilustrar diferentes mecanismos que podem participar da obesidade.

No fim, a pergunta mais importante não é:

“Qual é a melhor dieta para emagrecer?”

É:

“Quais fatores estão contribuindo para a obesidade desta pessoa e qual estratégia faz sentido para ela?”

É aí que começa a individualização do tratamento.


Tratamento da obesidade em Campinas, São Paulo e on-line

Dra. Camila Ayer
Médica de Família e Comunidade
CRM-SP 130787 | RQE 153900

Atendimento pelo Método 5P em Campinas, São Paulo e on-line para todo o Brasil.

Conteúdo educativo. A avaliação e o tratamento da obesidade devem ser individualizados.