Experiências adversas na infância podem aumentar o risco de obesidade na vida adulta?
Assistindo ao reality show Quilos Mortais (My 600-lb Life), uma característica de algumas histórias chama atenção: relatos de abuso, negligência, violência, conflitos familiares e outras experiências difíceis durante a infância.
É importante começar com uma ressalva: um reality show não é evidência científica. Os episódios são editados, mostram histórias individuais e não permitem concluir por que determinada pessoa desenvolveu obesidade.
Mas a observação levanta uma pergunta que a ciência investiga há décadas:
experiências adversas vividas na infância podem estar relacionadas ao desenvolvimento de obesidade na vida adulta?
A resposta curta é: sim, existe uma associação. Mas ela é muito mais complexa do que simplesmente dizer que “trauma causa obesidade”.
O que são experiências adversas na infância (ACEs)?
A sigla ACEs vem do inglês Adverse Childhood Experiences, ou Experiências Adversas na Infância.
O conceito ganhou destaque a partir de pesquisas realizadas nos Estados Unidos na década de 1990. Entre as experiências avaliadas estavam situações como:
abuso físico, emocional ou sexual;
negligência;
violência doméstica;
uso problemático de substâncias dentro da família;
transtornos mentais importantes no ambiente familiar;
encarceramento de membro da família;
separação ou outras formas importantes de disfunção familiar.
Portanto, quando falamos em ACEs, não estamos usando a palavra “trauma” de maneira vaga. Estamos falando de experiências específicas que podem ser estudadas e relacionadas a diferentes desfechos de saúde ao longo da vida.
O que o ACE Study encontrou?
Um dos trabalhos mais conhecidos nessa área foi o ACE Study, conduzido em parceria pelo CDC e pela Kaiser Permanente.
Mais de 17 mil adultos participaram da pesquisa.
Os pesquisadores encontraram uma relação do tipo dose–resposta: à medida que aumentava o número de experiências adversas relatadas na infância, também aumentava a frequência de diversos problemas de saúde e comportamentos de risco na vida adulta.
A obesidade estava entre os desfechos observados.
Desde então, outros estudos e revisões sistemáticas continuaram investigando a associação entre adversidades na infância e obesidade ao longo da vida.
Isso não significa, porém, que uma coisa determine automaticamente a outra.
Como experiências da infância poderiam influenciar o peso?
Não existe um mecanismo único.
A obesidade é uma doença crônica, complexa e multifatorial. Genética, mecanismos neuroendócrinos, ambiente alimentar, condições socioeconômicas, sono, medicamentos, saúde mental, comportamento alimentar e diversos outros fatores podem participar do seu desenvolvimento.
Experiências adversas precoces podem interagir com alguns desses mecanismos.
Regulação das emoções e comportamento alimentar
Comer não responde exclusivamente à fome fisiológica.
A alimentação também está relacionada a prazer, recompensa, memória, cultura, vínculo social e regulação emocional.
Em algumas pessoas, a comida pode se tornar uma estratégia para lidar com ansiedade, tristeza, estresse ou outras emoções difíceis.
Isso não deve ser reduzido a “falta de controle”.
Compreender qual função determinado comportamento alimentar exerce na vida daquela pessoa pode ser muito mais útil do que simplesmente dizer que ela precisa comer menos.
Estresse crônico
Experiências adversas durante fases importantes do desenvolvimento podem estar associadas a alterações nos sistemas envolvidos na resposta ao estresse.
Esse é um campo complexo e não deve ser resumido à ideia simplista de que “cortisol engorda”.
A relação envolve potencialmente resposta neuroendócrina, comportamento, sono, saúde mental, alimentação e exposição prolongada a diferentes condições ambientais.
Sono e saúde mental
Adversidades na infância também estão associadas, em nível populacional, a maior ocorrência de alguns problemas de saúde mental e distúrbios relacionados ao sono.
Esses fatores, por sua vez, podem interagir com fome, saciedade, atividade física, alimentação e regulação do peso.
O contexto continua depois da infância
Outro ponto frequentemente esquecido é que uma experiência adversa não acontece isoladamente.
Condições socioeconômicas, acesso a alimentos, segurança, oportunidades para atividade física, educação, trabalho e ambiente familiar podem continuar influenciando a saúde durante muitos anos.
Por isso, tentar explicar obesidade por uma única causa quase sempre produz uma explicação incompleta.
Trauma causa obesidade?
Não podemos afirmar isso dessa maneira.
Associação não é sinônimo de causalidade individual.
Nem toda pessoa com obesidade passou por experiências adversas importantes durante a infância.
E a maioria das pessoas que passou por alguma adversidade também não necessariamente desenvolverá obesidade.
Estamos falando de fatores que podem modificar risco dentro de uma doença determinada por múltiplas influências.
Esse cuidado é particularmente importante porque existe o risco de substituir um estigma por outro.
Antes, dizia-se:
“Essa pessoa tem obesidade porque não tem força de vontade.”
Também seria errado passar a dizer:
“Essa pessoa tem obesidade porque tem algum trauma.”
Nos dois casos, estamos tentando reduzir uma doença complexa a uma explicação única.
Por que a história de vida importa no tratamento da obesidade?
Porque pessoas não chegam ao consultório apenas com um peso, um IMC ou um exame laboratorial.
Elas chegam com uma história.
Duas pessoas com o mesmo peso podem ter mecanismos completamente diferentes envolvidos no desenvolvimento e na manutenção da obesidade.
Uma pode apresentar fome intensa e alterações importantes de saciedade.
Outra pode ter alimentação emocional predominante.
Outra pode dormir cinco horas por noite.
Outra utiliza medicamentos associados ao ganho de peso.
Outra enfrenta limitações financeiras, jornadas extensas de trabalho ou dificuldade de acesso a alimentos adequados.
E várias dessas situações podem coexistir.
É justamente por isso que um tratamento individualizado da obesidade precisa investigar muito mais do que aquilo que a pessoa coloca no prato.
Isso significa investigar trauma em todo paciente com obesidade?
Não.
A existência dessa associação não justifica presumir que toda pessoa com obesidade tenha uma história traumática — muito menos forçar alguém a falar sobre experiências que não deseja abordar.
O objetivo é outro:
não presumir que sabemos a história de uma pessoa apenas olhando para o seu corpo.
Uma abordagem clínica adequada deve criar espaço para compreender comportamento alimentar, saúde mental, sono, contexto familiar e social e outros fatores relevantes quando eles estiverem presentes.
E, quando houver necessidade de uma abordagem específica de saúde mental, o cuidado multiprofissional pode ser fundamental.
O que Quilos Mortais pode — e não pode — nos ensinar?
Quilos Mortais é um reality show, não um estudo científico.
Os participantes são indivíduos reais, mas aquilo que chega à televisão passa por seleção, edição e construção narrativa. Não podemos assistir a um episódio e estabelecer relações de causa e efeito sobre a saúde daquela pessoa.
Por outro lado, o programa pode provocar uma reflexão importante.
Por trás de um corpo com obesidade grave pode existir uma combinação extremamente complexa de:
biologia + comportamento + história de vida + ambiente.
É justamente essa complexidade que décadas de pesquisa sobre obesidade vêm tentando compreender.
Como funciona uma abordagem integral da obesidade?
Como Médica de Família e Comunidade com atuação no tratamento da obesidade em Campinas e também por telemedicina, minha avaliação procura compreender a pessoa além do peso.
No Método 5P, organizo esse cuidado em cinco dimensões:
Prato: alimentação possível, adequada ao contexto e sustentável.
Passos: movimento, exercício e redução do comportamento sedentário.
Pausa: sono, recuperação e estresse.
Psique: comportamento alimentar, relação com a comida e aspectos emocionais relevantes.
Prescrição: avaliação clínica, exames e medicamentos quando houver indicação.
Essas dimensões se influenciam mutuamente. Não existe uma fórmula única que funcione para todas as pessoas.
Tratamento da obesidade é mais do que emagrecer
Reduzir a obesidade a “comer menos e se exercitar mais” ignora boa parte do conhecimento acumulado sobre a doença.
Da mesma forma, reduzir tudo a hormônios, genética, trauma ou medicamentos também seria simplista.
O tratamento adequado começa tentando responder uma pergunta muito mais útil:
quais fatores estão contribuindo para a obesidade desta pessoa, neste momento da vida dela?
A resposta pode ser diferente para cada paciente.
E é justamente por isso que tratamento da obesidade exige ciência, individualização e cuidado longitudinal.
Tratamento da obesidade em Campinas e on-line
Dra. Camila Ayer
Médica de Família e Comunidade
CRM-SP 130787 | RQE 153900
Atendimento para obesidade e sobrepeso em Campinas, SP, e on-line para todo o Brasil.
Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui avaliação médica individual.