Obesidade é uma escolha? O que essa frase ignora sobre a doença
Imagine Dona Maria.
Ela mora em uma comunidade no Rio de Janeiro, pega dois ônibus para trabalhar e passa boa parte do dia fora de casa.
Perto de onde mora, alimentos frescos podem custar mais ou exigir mais deslocamento e organização do que opções ultraprocessadas. Ela tem pouco tempo para cozinhar, dorme menos do que gostaria e nem sempre encontra condições seguras e acessíveis para praticar atividade física.
Dona Maria é uma personagem fictícia.
Mas a realidade que ela representa existe.
Agora vem a pergunta:
ter obesidade foi simplesmente uma escolha da Dona Maria?
A resposta curta é não.
Isso não significa dizer que nossas escolhas não importam. Significa reconhecer algo fundamental para a Medicina de Família e Comunidade:
as escolhas relacionadas à saúde não acontecem no vácuo.
Obesidade é uma doença crônica e multifatorial
A obesidade não pode ser explicada por uma única causa.
Sua ocorrência resulta da interação entre predisposição genética, mecanismos biológicos de regulação do peso, ambiente alimentar, condições socioeconômicas, sono, atividade física, medicamentos, condições de saúde e diversos outros fatores.
Por isso, reduzir a obesidade a uma decisão individual — “essa pessoa escolheu comer demais” — ignora boa parte do que sabemos sobre a doença.
Também ignora algo que a Medicina de Família observa todos os dias:
duas pessoas podem receber exatamente a mesma orientação e ter possibilidades completamente diferentes de colocá-la em prática.
O que são determinantes sociais da saúde?
Na Medicina de Família e Comunidade, não olhamos apenas para a doença. Olhamos também para a pessoa, sua família, seu trabalho, seu território e suas condições concretas de vida.
É aí que entram os determinantes sociais da saúde.
Renda, escolaridade, trabalho, moradia, transporte, segurança, acesso a serviços de saúde, disponibilidade de alimentos e oportunidades para atividade física são exemplos de condições que influenciam saúde e adoecimento.
Pense novamente na Dona Maria.
Dizer simplesmente:
“Você precisa preparar refeições saudáveis e fazer atividade física todos os dias”
pode parecer uma orientação tecnicamente correta.
Mas precisamos perguntar:
Ela tem dinheiro para comprar esses alimentos?
Existe comércio próximo com variedade e preço adequado?
Tem geladeira no trabalho?
Consegue parar para almoçar?
Quanto tempo passa no transporte?
Existe um local seguro para caminhar perto de casa?
Quem cuida dos filhos enquanto ela se exercita?
Quantas horas consegue dormir?
A resposta a essas perguntas não elimina a importância da alimentação ou da atividade física.
Ela determina como essas recomendações podem ser transformadas em cuidado possível.
Isso significa que a pessoa não tem responsabilidade sobre a própria saúde?
Não.
Esse é um falso dilema frequente nessa discussão.
Reconhecer determinantes sociais e mecanismos biológicos da obesidade não significa negar a autonomia da pessoa ou dizer que suas decisões não importam.
Significa reconhecer que autonomia não é exercida nas mesmas condições por todo mundo.
A pessoa participa ativamente do tratamento. Faz escolhas, estabelece prioridades e decide quais mudanças consegue implementar.
Mas responsabilidade pelo cuidado é diferente de culpa pela doença.
Essa distinção importa.
A própria biologia também influencia o peso
O ambiente é apenas uma parte da história.
Nosso organismo possui sistemas complexos envolvidos na regulação da ingestão alimentar, fome, saciedade e gasto energético.
Existem diferenças individuais importantes na susceptibilidade ao ganho de peso.
Por isso, duas pessoas expostas ao mesmo ambiente não necessariamente desenvolverão obesidade da mesma forma.
Genética e ambiente não são explicações concorrentes.
Eles interagem.
A obesidade surge justamente dessa combinação complexa entre características individuais e o contexto em que a pessoa vive.
E a própria obesidade pode dificultar a perda de peso
Existe ainda outra camada importante.
Depois que o excesso de adiposidade se estabelece, perder peso não significa simplesmente decidir comer menos e esperar que o organismo permaneça passivo.
Durante e após a perda de peso, podem ocorrer adaptações biológicas compensatórias.
O gasto energético pode diminuir.
Sinais relacionados à fome e à saciedade podem se modificar.
A motivação para buscar alimentos pode aumentar.
Essas respostas ajudam a entender por que muitas pessoas conseguem emagrecer inicialmente, mas apresentam dificuldade para manter a perda ao longo dos anos.
Isso não significa que o organismo possua um “peso ideal” rígido que seja impossível modificar.
Significa que existem mecanismos fisiológicos que se opõem à perda e favorecem o reganho de peso.
Reganho de peso não é necessariamente falta de disciplina
Essa talvez seja uma das consequências mais importantes de compreender a fisiologia da obesidade.
Uma pessoa faz dieta.
Perde peso.
Meses ou anos depois, recupera parte dele.
Socialmente, a explicação costuma ser imediata:
“Relaxou.”
“Voltou a comer.”
“Faltou força de vontade.”
Só que o reganho de peso é extremamente comum no tratamento da obesidade e envolve fatores biológicos, comportamentais e ambientais.
É justamente uma das razões pelas quais faz mais sentido pensar em obesidade como doença crônica, e não como um problema que se resolve com alguns meses de dieta.
O território também entra no consultório
Existe um conceito muito importante na Medicina de Família e Comunidade: território.
Território não é apenas o endereço onde uma pessoa mora.
É o espaço em que sua vida acontece.
Onde compra comida.
Como chega ao trabalho.
Quais serviços de saúde consegue acessar.
Onde pode se movimentar.
Quais redes de apoio possui.
Quais riscos e recursos existem ao redor dela.
Quando conhecemos esse contexto, a pergunta deixa de ser apenas:
“Por que você não seguiu minha orientação?”
e passa a ser:
“O que aconteceu na sua vida que tornou essa orientação difícil de executar?”
Essa segunda pergunta costuma produzir um cuidado muito melhor.
Por que o estigma da obesidade atrapalha o tratamento?
Quando obesidade é interpretada como escolha, aparece uma conclusão moral:
se a pessoa tem obesidade, ela seria responsável por estar naquela situação.
E, se não emagrece, não teria se esforçado o suficiente.
Esse tipo de julgamento pode aparecer na sociedade, na família e até dentro dos serviços de saúde.
O problema é que estigma não trata obesidade.
Ao contrário, pode afastar pessoas do cuidado, piorar a relação com profissionais de saúde e transformar cada dificuldade terapêutica em mais uma experiência de culpa.
Cuidado em saúde exige outra abordagem.
Como a Medicina de Família pode contribuir para o tratamento da obesidade?
A Medicina de Família e Comunidade trabalha com alguns princípios particularmente úteis para uma doença crônica e multifatorial como a obesidade.
Um deles é o cuidado centrado na pessoa.
Não tratamos apenas um IMC. Precisamos compreender quem é aquela pessoa, o que ela deseja, quais condições de saúde apresenta e quais possibilidades existem naquele momento.
Outro é a longitudinalidade.
Obesidade não precisa de uma intervenção isolada seguida de “alta” assim que determinado peso é alcançado. O acompanhamento ao longo do tempo permite adaptar estratégias conforme a vida e a própria doença mudam.
Também existe a integralidade.
Alimentação importa, mas talvez também seja necessário abordar sono, atividade física, saúde mental, medicamentos que favoreçam ganho de peso, doenças associadas, dificuldades econômicas ou barreiras de acesso.
E existe o contexto familiar e comunitário.
Às vezes, uma recomendação só se torna possível quando entendemos quem compra a comida da casa, quem cozinha, quais são os horários da família e quais recursos existem naquele território.
Então qual é o papel das escolhas no tratamento?
Elas continuam existindo.
A questão é parar de tratá-las como se fossem produzidas exclusivamente por caráter, disciplina ou força de vontade.
Um tratamento adequado procura aumentar as possibilidades de escolha.
Pode significar organizar uma alimentação compatível com a renda e a rotina.
Encontrar uma forma possível de atividade física.
Investigar e tratar um problema de sono.
Rever medicamentos.
Tratar condições associadas.
E, quando existe indicação, utilizar farmacoterapia para obesidade.
A pergunta deixa de ser:
“Por que você não consegue se controlar?”
e passa a ser:
“Quais fatores estão sustentando essa doença e em quais deles conseguimos intervir?”
Essa é uma pergunta clinicamente muito mais útil.
Obesidade precisa de tratamento, não de julgamento
Dona Maria faz escolhas.
Eu faço escolhas.
Você faz escolhas.
Mas nossas escolhas não acontecem no vácuo.
Somos influenciados pela nossa biologia, pela história que carregamos e pelas condições em que vivemos.
Reconhecer isso não significa retirar da pessoa sua autonomia ou sua participação no tratamento.
Significa separar duas coisas que foram misturadas durante muito tempo:
responsabilidade pelo cuidado e culpa pela doença.
Obesidade é uma doença crônica e multifatorial.
E doença precisa de cuidado.
Não de julgamento.
Sobre a autora
Dra. Camila Ayer
Médica de Família e Comunidade
CRM-SP 130787 | RQE 153900
Atuação no tratamento da obesidade e saúde metabólica com abordagem integral e longitudinal.
Atendimento presencial em Campinas e São Paulo e on-line para todo o Brasil.
Informações e agendamento disponíveis no site.