“Você só emagreceu porque usou Mounjaro.”

Essa frase parece simples, mas carrega uma ideia antiga: a de que emagrecer só teria valor se fosse difícil, baseado exclusivamente em dieta, exercício e muita força de vontade.

Não é assim que tratamos uma doença crônica.

Medicamentos como tirzepatida e semaglutida podem fazer parte do tratamento da obesidade quando existe indicação médica. Utilizá-los não torna o resultado menos válido e não significa que a pessoa tenha escolhido um “caminho fácil”.

Significa que ela utilizou uma ferramenta terapêutica.

Obesidade é uma doença crônica

Esse é o ponto de partida para entender toda essa discussão.

A obesidade não é simplesmente consequência de “comer demais e se exercitar de menos”. É uma condição complexa na qual participam mecanismos biológicos, ambientais, comportamentais, sociais e genéticos.

Além disso, o próprio organismo possui mecanismos que dificultam a perda e, principalmente, a manutenção do peso perdido.

Depois do emagrecimento, alterações na regulação da fome, da saciedade e do gasto energético podem favorecer o reganho de peso.

Por isso, diretrizes atuais abordam a obesidade como uma doença crônica que pode exigir tratamento de longo prazo.

Medicamento para obesidade é tratamento ou atalho?

Quando existe indicação adequada, é tratamento.

A farmacoterapia faz parte das opções disponíveis para o manejo da obesidade, ao lado de intervenções sobre alimentação, atividade física, sono, comportamento e, em situações específicas, cirurgia metabólica e bariátrica.

A atualização de 2025 das diretrizes canadenses de farmacoterapia para obesidade, por exemplo, considera os medicamentos parte integrante do tratamento e recomenda que a escolha seja individualizada conforme as necessidades, complicações, valores e preferências de cada pessoa.

No Brasil, o posicionamento conjunto da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (ABESO) e da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) também reconhece o papel do tratamento farmacológico da obesidade.

Portanto, chamar a medicação de “trapaça” não é uma descrição médica.

É um julgamento moral sobre o tratamento.

Como Mounjaro e outros medicamentos ajudam no emagrecimento?

Mounjaro é o nome comercial da tirzepatida, medicamento que atua nos receptores de GIP e GLP-1.

Entre seus efeitos estão alterações na regulação do apetite e da ingestão alimentar, o que pode facilitar uma redução sustentada da ingestão energética.

A semaglutida, utilizada em medicamentos da classe dos agonistas do receptor de GLP-1, também atua em mecanismos relacionados à fome e à saciedade.

Isso é importante porque mostra uma mudança de perspectiva:

a medicação não substitui uma suposta “força de vontade”. Ela atua justamente em mecanismos biológicos envolvidos na regulação do peso.

“Mas a pessoa não deveria conseguir emagrecer sozinha?”

Essa pergunta revela bem o estigma associado à obesidade.

Não costumamos exigir que alguém controle a pressão arterial “sozinho” antes de aceitar o uso de um anti-hipertensivo.

Também não consideramos fracasso precisar de medicamentos para controlar outras doenças crônicas quando existe indicação.

Na obesidade, entretanto, ainda existe a expectativa de que a pessoa prove disciplina suficiente antes de “merecer” tratamento.

Esse raciocínio não ajuda.

O objetivo do tratamento não é demonstrar mérito.

É melhorar saúde.

Então todo mundo com excesso de peso deveria usar Mounjaro?

Não.

Reconhecer medicamentos como ferramentas legítimas não significa banalizar seu uso.

A indicação depende de uma avaliação individual que considere grau e distribuição da adiposidade, complicações relacionadas ao peso, histórico clínico, tratamentos anteriores, contraindicações, efeitos adversos, preferências, disponibilidade e objetivos terapêuticos.

Além disso, existem diferentes medicamentos para obesidade.

A melhor opção não é necessariamente o medicamento mais famoso ou aquele que proporciona a maior perda média de peso nos estudos.

Tratamento precisa ser individualizado.

Usar medicação significa que alimentação e exercício não importam?

Também não.

Diretrizes atuais recomendam que a farmacoterapia seja integrada às demais dimensões do tratamento.

Alimentação continua importante.

Atividade física continua importante.

Sono, saúde mental, preservação de massa muscular, condições metabólicas e acompanhamento clínico continuam importantes.

Mas existe uma diferença fundamental entre dizer:

“Esses fatores fazem parte do tratamento.”

e dizer:

“Você precisa conseguir emagrecer apenas com eles para provar que se esforçou.”

A primeira afirmação é cuidado em saúde.

A segunda é moralização.

E se a pessoa recuperar peso depois de parar o medicamento?

Isso pode acontecer.

A obesidade é uma condição crônica e o reganho após a interrupção da farmacoterapia é um fenômeno conhecido.

Por isso, atualmente existe uma discussão cada vez mais clara sobre tratamento e manutenção de longo prazo, em vez da antiga lógica de utilizar um medicamento por alguns meses, atingir determinado peso e simplesmente interrompê-lo.

Isso não significa que todas as pessoas precisarão utilizar a mesma medicação indefinidamente.

Significa que a decisão de continuar, modificar ou interromper o tratamento precisa fazer parte de um planejamento clínico — e não ser baseada na ideia de que “agora você precisa se virar sozinha”.

O tratamento não diminui o mérito de ninguém

Talvez nem devêssemos falar em mérito.

Perder peso não é uma prova moral.

Usar tirzepatida, semaglutida ou outro medicamento quando existe indicação não significa que alguém “trapaceou”.

Da mesma forma, não usar medicamento não torna ninguém mais disciplinado.

A pergunta mais útil não é:

“Você conseguiu sozinha ou precisou de remédio?”

É:

“Você recebeu o tratamento adequado para você?”

Obesidade é uma doença crônica.

E tratar uma doença não deveria ser motivo de vergonha.

Referências

Moreira RO, Valerio CM, Hohl A, et al. Pharmacologic Treatment of Obesity in adults and its impact on comorbidities: 2024 Update and Position Statement of Specialists from the Brazilian Association for the Study of Obesity and Metabolic Syndrome (Abeso) and the Brazilian Society of Endocrinology and Metabolism (SBEM). Archives of Endocrinology and Metabolism. 2024;68.

Pedersen SD, Manjoo P, Dash S, et al. Pharmacotherapy for obesity management in adults: 2025 clinical practice guideline update. CMAJ. 2025;197(27).

American Diabetes Association. Standards of Care in Overweight and Obesity—2025. BMJ Diabetes Research & Care. 2025.

Sobre a autora

Dra. Camila Ayer
Médica de Família e Comunidade
CRM-SP 130787 | RQE 153900

Atuação no tratamento da obesidade e saúde metabólica, com cuidado integral e longitudinal.

Atendimento presencial em Campinas e São Paulo e on-line para todo o Brasil.

Tratamento da obesidade vai além da prescrição

Medicamentos podem fazer parte do tratamento, mas a decisão sobre quando utilizar, qual utilizar e como acompanhar precisa ser individualizada.

Conheça como funciona o acompanhamento para obesidade e saúde metabólica.