Mounjaro, obesidade e julgamento: por que usar medicação não diminui o valor do tratamento

Quando uma pessoa conta que emagreceu usando Mounjaro ou outra medicação para obesidade, é comum aparecerem comentários como:

“Assim é fácil.”
“Quero ver emagrecer sem caneta.”
“Desse jeito qualquer um consegue.”

A discussão que surgiu em torno do emagrecimento da atriz Fabiana Karla, após ela falar publicamente sobre o uso de Mounjaro, mostra um problema que vai muito além de uma celebridade ou de um medicamento específico.

Ainda existe uma ideia de que a pessoa com obesidade precisa emagrecer apenas com alimentação e exercício — e, de preferência, demonstrando muito esforço — para que seu resultado seja considerado legítimo.

Só que tratamento médico não é prova de mérito.

Obesidade é uma doença crônica

A obesidade é uma doença crônica, complexa e multifatorial.

Isso significa que seu desenvolvimento não depende simplesmente de comer demais ou se exercitar de menos. Fatores genéticos, metabólicos, hormonais, ambientais, comportamentais, sociais, psicológicos, sono, medicamentos e história de vida podem participar do quadro.

Por isso, reduzir o tratamento da obesidade a “fechar a boca e fazer exercício” não é apenas simplista. É uma maneira inadequada de compreender a doença.

E é justamente aqui que a Medicina de Família e Comunidade pode ter um papel importante.

O que a Medicina de Família tem a ver com o tratamento da obesidade?

Como médica de família, meu raciocínio não começa na pergunta:

“Qual medicamento você vai usar para emagrecer?”

Começa antes.

Como essa pessoa ganhou peso?
O que já tentou?
Como é sua alimentação?
Como dorme?
Como está sua saúde mental?
Quais doenças apresenta?
Quais medicamentos utiliza?
Como é sua rotina?
Existe compulsão alimentar?
Há limitações para atividade física?
Quais são suas expectativas com o tratamento?

Esse olhar longitudinal e integral é particularmente útil na obesidade porque estamos diante de uma condição que frequentemente precisa de acompanhamento por longo prazo, e não apenas de uma intervenção pontual para reduzir o número da balança.

O objetivo não deveria ser simplesmente fazer alguém perder peso.

É tratar uma pessoa que vive com obesidade.

Mounjaro e outras “canetas para emagrecer” são atalhos?

Essa é uma das perguntas que mais revelam como ainda enxergamos a obesidade.

Medicamentos utilizados no tratamento da obesidade atuam em mecanismos biológicos relacionados, entre outros aspectos, à fome, saciedade e regulação da ingestão alimentar.

Quando existe indicação clínica, a farmacoterapia pode integrar o tratamento.

Isso não significa que toda pessoa com excesso de peso precise de medicação. Também não significa que prescrever uma caneta resolva, isoladamente, tudo o que envolve a obesidade.

Significa apenas que medicamento é uma ferramenta terapêutica.

A escolha da medicação, indicação, contraindicações, dose, resposta clínica, efeitos adversos e estratégia de acompanhamento precisam ser avaliadas individualmente pelo médico.

“Mas com Mounjaro fica fácil emagrecer”

Essa frase carrega uma questão interessante: por que um tratamento precisaria ser difícil para ser considerado válido?

Na hipertensão, ninguém espera que o paciente tente controlar indefinidamente a pressão sem medicamentos para provar que merece tomar um anti-hipertensivo.

No diabetes, utilizar medicamentos não torna o tratamento menos legítimo.

Na obesidade, entretanto, ainda existe uma forte dimensão moral.

Se a pessoa não emagrece, muitas vezes é acusada de não ter disciplina.

Quando emagrece com auxílio de medicamentos, pode ser acusada de ter escolhido o caminho fácil.

Perceba a contradição: o corpo da pessoa continua sendo julgado independentemente do que ela faça.

O problema não é discutir medicamentos. É transformar tratamento em julgamento.

É absolutamente legítimo discutir segurança, indicação, contraindicações, efeitos adversos, custo e uso inadequado de medicamentos para obesidade.

Aliás, essa discussão é necessária.

O problema começa quando uma discussão médica é substituída por um julgamento moral sobre quem utiliza o tratamento.

Uma pessoa não deveria precisar explicar publicamente quantas dietas fez, quanto sofreu ou quantas vezes tentou emagrecer antes de receber tratamento médico.

A pergunta mais útil não é:

“Por que ela precisou usar uma caneta?”

É:

“Esse tratamento era adequado para aquela pessoa e está sendo acompanhado corretamente?”

Essa é uma pergunta clínica. E muda completamente a conversa.

Emagrecer não significa que a obesidade deixou de existir

Esse talvez seja um dos pontos mais importantes.

Quando uma pessoa perde peso, isso não significa automaticamente que todos os mecanismos biológicos envolvidos na obesidade desapareceram.

O organismo pode responder à perda de peso com adaptações que favorecem recuperação do peso perdido, incluindo alterações relacionadas à fome, saciedade e gasto energético.

Por isso, a discussão sobre manutenção do peso após o emagrecimento precisa fazer parte do tratamento desde o início.

Em alguns pacientes, isso pode incluir tratamento farmacológico prolongado. Em outros, a estratégia será diferente.

Não existe uma regra única que sirva para todos.

Onde entra o acompanhamento com um Médico de Família?

A vantagem de acompanhar obesidade dentro da Medicina de Família é justamente não separar o peso do restante da pessoa.

Durante o acompanhamento, podemos avaliar simultaneamente questões como pressão arterial, diabetes e pré-diabetes, colesterol, saúde cardiovascular, sono, saúde mental, alimentação, atividade física, sintomas relacionados ao climatério e menopausa, medicamentos em uso e outras condições que interferem no tratamento.

Também podemos acompanhar o que acontece depois que o paciente emagrece.

Porque tratar obesidade não deveria significar apenas chegar a determinado peso.

Significa construir uma estratégia que faça sentido para aquela pessoa e que possa ser reavaliada conforme sua saúde e sua vida mudam.

Afinal, usar Mounjaro ou outra medicação diminui o mérito de quem emagreceu?

Não.

E talvez a própria ideia de “mérito” esteja errada.

Tratamento médico não deveria ser uma competição para descobrir quem conseguiu melhorar sua saúde sofrendo mais.

Quando há indicação, acompanhamento adequado e decisão compartilhada entre médico e paciente, utilizar uma medicação para obesidade é simplesmente utilizar uma das ferramentas disponíveis para tratar uma doença.

Podemos — e devemos — discutir criticamente o uso desses medicamentos.

Mas isso é muito diferente de julgar quem os utiliza.


Tratamento da obesidade com acompanhamento médico

Se você vive com obesidade ou sobrepeso e já passou por diversas tentativas de emagrecimento, uma avaliação médica pode ajudar a entender por que determinadas estratégias não funcionaram para você e quais opções fazem sentido para o seu caso.

Meu trabalho como Médica de Família e Comunidade com atuação no tratamento da obesidade é olhar além do peso: história clínica, alimentação, movimento, sono, saúde mental, perfil metabólico, exames, doenças associadas e, quando houver indicação, tratamento medicamentoso.

Atendo presencialmente em Campinas e São Paulo, além de realizar consultas on-line para pacientes em todo o Brasil.

Dra. Camila Ayer
Médica de Família e Comunidade
CRM-SP 130787 | RQE 153900